Parentificação é uma forma “invisível” de trauma, nem sempre reconhecida pela sociedade. Ela ocorre quando pais demandam suporte emocional de seus filhos e os responsabilizam por tarefas domésticas e cuidados a terceiros, para além do que seria compatível com sua idade. Basicamente, uma inversão de papéis. No processo, os filhos não conseguem ter o suporte necessário para um desenvolvimento saudável. Então, quando se tornam adultos, enfrentam problemas com:
- Dificuldade de se expressar;
- Inabilidade de entender suas próprias emoções;
- Inabilidade de entender e reconhecer suas próprias necessidades;
- Autossuficiência excessiva ("eu consigo fazer tudo sozinho");
- Medo de pedir por ajuda ou a aceitar;
- Imaturidade emocional ou recreação exacerbada (não saber medir limites para atividades de lazer);
- Postura defensiva em relacionamentos;
- Padrões de co-dependência e barganha;
- Padrões de autossabotagem;
- Baixa autoestima; e
- Falta de senso de self.
Por que os pais parentificam suas crianças?
Entre os motivos, estão os seguintes:
- Imaturidade emocional (inabilidade de satisfazer suas necessidades de jeitos saudáveis e assumir o papel de figura de autoridade e adulta);
- Questões socioeconômicas;
- Ciclo geracional de trauma, foram parentificados quando crianças por seus pais e, portanto, essa é a única referência que têm;
- Falta de apoio social; e
- Quadros de dependência química e vícios comportamentais.
Existem cerca de cinco maiores estilos de parentificação:
1- A CRIANÇA SE TORNA O PAR: Os pais começam a ver a criança como um amigo. Se referem a ela como “melhor amiga” e contam com ela para ajudar a resolver problemas ou desabafar. Exemplo: um pai desabafa sobre as dificuldades conjugais para seu filho ou fala negativamente sobre o outro pai para a criança.
2- O PAI QUE TRABALHA DEMAIS: pais que trabalham demais e sofrem de problemas financeiros em casa atribuem a seus filhos as tarefas de casa, cuidar de irmãos mais novos ou lidar com tarefas que estão além de sua capacidade emocional. O pai está sob pressão devido a questões socioeconômicas e tal pressão é sentida pela criança.
3- PAIS COM VÍCIO EM SUBSTÂNCIAS: pais que possuem dependência química em álcool ou outras drogas não conseguem fornecer aos seus filhos apoio emocional ou estabilidade. As crianças podem entender, diante de tal situação, que é seu dever cuidar de seus pais e assumir as tarefas de casa e a rotina do núcleo familiar.
4- O PAI REVOGADO: pais cujas necessidades foram negadas, negligenciadas ou que sofreram de traumas pessoais podem revogar suas responsabilidades. Seus filhos aprendem que eles não são confiáveis e que não devem depender deles, tornando-se autossuficientes e superindependentes, assumindo papéis de destaque precocemente em suas vidas.
5- FILHOS DE IMIGRANTES/REFUGIADOS: pais que se sacrificam e levam seus filhos para outro país à procura de uma vida melhor muitas vezes se apoiam em seus filhos para cuidar das tarefas de casa e da família. Eles pedem ajuda para entender a língua, pagar as contas ou entender normas culturais e sociais. Sendo assim, crianças desempenham papéis adultos que extrapolam o que seria aceitável para a fase de desenvolvimento em que estão.
Com isso, no processo de parentificação, os filhos aprendem que:
- são responsáveis pelas emoções dos adultos à sua volta;
- as necessidades dos pais vêm antes das deles;
- pessoas não são confiáveis ou são incapazes de cuidar deles;
- precisam cuidar de si (embora, desesperadamente, muitas vezes, precisem ser cuidados por alguém).
Frequentemente, crianças que foram parentificadas aparentam ser maduras para sua idade. Elas podem falar sobre assuntos mais sérios, até, se necessário for, assumir papéis de adultos (ex.: ser responsável por levar ou buscar irmãos mais novos em suas atividades, participar de reuniões de pais e mestres na escola, tomar a frente na organização e preparo das refeições familiares, trabalhar para complementar a renda da casa).
Com o passar do tempo, o foco da criança se torna corresponder às necessidades dos pais ou do funcionamento do núcleo familiar por si.
E, no final, como resultado, se instalam na criança tanto o senso de hiper-responsabilidade, quanto a crença nuclear de que é papel dela cuidar e se responsabilizar pelas necessidades e emoções alheias.
Como a parentificação impacta nos relacionamentos adultos de uma pessoa:
- Momentos de raiva e explosão que parecem “vir de lugar nenhum” (necessidades reprimidas que não se sabe quais são e nem como lidar);
- Mecanismos de enfrentamento autodestrutivos (álcool, drogas, compulsões por jogos, comida, etc);
- Falta de confiança em seus relacionamentos;
- Medo constante de abandono;
- Falta de limites ou dificuldade de compreender os limites de parceiros e amigos;
- Altos níveis de defensiva que podem vir da vergonha de infância (crenças nucleares que indicam que a pessoa é “má”):
- Mascarar sentimentos e não comunicar a parceiros como se sente;
- Indecisão em excesso: inabilidade de tomar decisões ou medo de tomar a decisão errada;
- Problemas em resolução de conflitos: inabilidade de cooperar como um time ou trabalhar em conjunto para solucionar problemas com parceiros.
Há três estágios para libertação ou aprender a lidar com as sequelas da parentificação:
1- INDIVIDUALIZAÇÃO: se tornar alguém por si só e diferente do seu self familiar. Isso é possível ao estabelecer limites e passar tempo sozinho para se conhecer, se respeitar e se descobrir como pessoa fora do núcleo familiar.
2- DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL: adultos que foram parentificados não tiveram seu desenvolvimento emocional apropriado, então a valorização de si mesmo não foi construída. Tal valorização é construída a partir de: autocuidado, criar hábitos saudáveis e manter promessas pequenas para si mesmo;
3- RESPONSABILIDADE PESSOAL: a pior parte da parentificação é testemunhar adultos que não foram responsáveis pelas trajetórias de suas vidas. Curar é sobre entender a responsabilidade que um adulto tem sobre si, suas próprias ações e, consequentemente, até onde essa responsabilidade termina.
Crianças não são capazes de prover apoio emocional para adultos.
Para que tenham um desenvolvimento saudável, crianças precisam de adultos que afinem suas emoções e as apoiem ao longo de suas experiências. É assim que se desenvolve um senso de self.