LGBT+

Estresse de minorias

Fenômenos que ecoam e afetam de formas distintas e acentuadas diferentes parcelas demográficas.

Clara Ferreira Pio

Clara Ferreira Pio

Psicóloga

O estresse de minorias é um fenômeno que precisa ser entendido e levado em conta na sociedade para que haja a construção de políticas de reparação voltadas a quem precisa.

Estresse de minorias

Na sociedade atual, um dos fatores em comum que a grande maioria das pessoas compartilha é o estresse. Seja pelo trabalho, pelo cansaço, pela insegurança financeira ou até mesmo pelo excesso de responsabilidades, o mundo impõe demandas que exigem muito de quase todos.

No entanto, também é de conhecimento comum que, dependendo da realidade de cada um e do que se enfrenta, os mesmos eventos podem carregar pesos diferentes.


Para fins didáticos, vamos usar o exemplo da pessoa A e da pessoa B.

A pessoa A é um homem cis hétero branco, que nasceu em uma família nuclear, com pais casados e concursados na cidade de São Paulo. Ele estudou em escolas particulares, teve acesso a cursos de inglês e de futebol, saía nos finais de semana com seus amigos à medida que crescia, viajou para a Disney e para outros lugares do exterior enquanto criança e adolescente e teve a oportunidade de fazer intercâmbio. Vamos dizer que essa pessoa prestou o vestibular para uma faculdade renomada como a USP e que foi aprovada, tanto porque estudou e levou a prova com seriedade, mas também porque conseguiu se preparar através de aulas particulares, intensivos de redação, simulados no final de semana e cursos livres.

Agora, temos a pessoa B. Esta é uma mulher cis hétero preta, que nasceu na periferia de São Paulo e que foi criada pela mãe solo e pela avó materna. Ela estudou em escolas públicas e, desde a adolescência, é menor aprendiz. Do salário que recebia, repassava a maior parte para que as contas da casa pudessem ser pagas. Ela não teve acesso a cursos de cursos de línguas estrangeiras ou artes por conta própria, mas a escola em que estudava oferecia um curso gratuito de inglês, por meio de um programa vinculado ao governo. A pessoa B, quando chega ao ensino médio, estuda para o ENEM, contando que sua nota possa ser o suficiente para pleitear um curso em uma universidade, usando o sistema de cotas. Ela não teve o amparo de outras ferramentas além do material da escola onde estudava e, por trabalhar meio período, contava com menos tempo disponível para estudar.


Diante desse panorama, podemos presumir que os desempenhos da pessoa A e da pessoa B serão diferentes. Existe a concordância de que os vestibulares ou o ENEM constituem  um evento estressor, que requer responsabilidade e mobiliza a pessoa com semanas, meses ou até anos de preparo. No entanto, devido a uma série de circunstâncias fora do controle de ambos, tanto a pessoa A quanto a pessoa B têm diferentes ferramentas em seu arsenal para se preparar.

Em virtude dessas circunstâncias, podemos concluir que a pessoa B, diante da situação de prestar o ENEM, sofre pressão adicional e está em defasagem em comparação com a pessoa A.

É isso que constitui o estresse de minorias. Ele é o resultado de como, mediante os atravessamentos de todos (cor, classe social, gênero, presença ou ausência de deficiências, idade, etc.), os eventos que já representam motivo para ansiedade sejam vistos como potencializadores de estresse ou até mesmo traumas.


É de extrema importância que saibamos identificar o estresse de minorias nas dinâmicas sociais para assim pensarmos em intervenções condizentes com as necessidades reais das pessoas em defasagem.

Resgatando o exemplo, tanto o ENEM quanto o sistema de cotas consistem em medidas que amparam uma parcela demográfica dos estudantes que necessitam de maior suporte para facilitar o acesso a cursos superiores.


Outros exemplos de estresse de minorias incluem:

- Um filho levar sua namorada para os pais conhecerem x uma filha levar sua namorada para os pais conhecerem;

- Uma pessoa preta se candidatar a uma vaga de emprego x uma pessoa branca se candidatar à mesma vaga;

- Uma pessoa sem deficiência ir até o centro da cidade a pé x uma pessoa com mobilidade reduzida fazer o mesmo trajeto.


Entender o fenômeno do estresse de minorias é fundamental para a construção de uma sociedade que preza pela equidade, princípio este que identifica e distribui maiores cuidados e atenção para quem precisa mais, de forma estratégica e tendo como objetivo maior qualidade de vida à população.

Estar em terapia também é fundamental, pois é diante dos atravessamentos individuais que percebemos onde podemos utilizar as ferramentas de acesso que temos para reparar, mesmo que em partes, as defasagens que possuímos.

Clara Ferreira Pio

Sobre a autora

Clara Ferreira Pio Sou Clara Ferreira Pio, psicóloga e neuropsicóloga, dedicada a ajudar pessoas a se tornarem protagonistas de suas próprias vidas.

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