Aprendendo a lidar com o desconforto
Ao sair do modo de sobrevivência, o que vem a seguir não é bonito. Sentimentos como vergonha, luto e medo são avassaladores. As antigas memórias dos traumas são invasivas e quase obsessivas. A confusão mental é constante, pesa e é presente, a ponto de nos perguntarmos quem somos.
Junto a esse bolo não processado de emoções negativas, há também o enorme alívio de quem tirou um elefante das costas.
No entanto, é também neste momento que pode haver a descoberta de que sentimentos não desaparecem ao serem ignorados. Muito pelo contrário — eles continuam crescendo e se manifestam de forma cada vez mais insistente. Sem contar que, por se tratar de um assunto sensível como a negligência de nossas fomes — literais e emocionais —, os sentimentos são cobrados com o atraso de toda uma vida sem nunca terem sido endereçados.
E um dos pontos disso é justamente entender que, no presente e fora do modo de sobrevivência, sentar e lidar com o desconforto não implica, necessariamente, em mover céus e terras para resolver. Muitas vezes haverá situações que estão além da nossa capacidade de resolução e parte da organização emocional envolve reconhecer esses momentos, validar os sentimentos de impotência e frustração que vêm com isso, mas também se conformar com não sermos responsáveis por tudo o que acontece conosco e com aqueles à nossa volta.
Na prática, isso pode se manifestar ao nos depararmos com a frustração sem o ímpeto imediato de saná-la, ou chorar por algo sem nos cobrarmos por aquilo ser ou não justificado, ou até mesmo nos permitirmos sentir o luto da infância que nos foi negada, sentindo saudade de algo que nunca tivemos.
Não se trata de um processo linear. Há dias em que o caminho parece fácil e leve, enquanto há também momentos em que dar um passo parece a coisa mais impossível de se fazer. Porém, todos os dias fazem parte do processo de cura.
Os pequenos sinais que apontam para a cura
Os marcos de progresso não são visíveis para muitas pessoas além de nós, aqueles que passam pelo processo.
No entanto, começamos a perceber que dormimos mais e melhor — não diante da depressão e exaustão totais, mas de forma genuína, que repara o cansaço do qual o corpo e a mente precisam se recuperar. Além disso, as demonstrações de sentimentos surgem sem a vergonha da exposição ou de um julgamento que, muitas vezes, não aparece. E não apenas as emoções, mas também começamos a ouvir nosso corpo — quando estamos com fome, com sede, cansados, diante de muito barulho ou de um ambiente no qual não queremos estar.
Começamos a perceber que o progresso, por mais não linear que seja, ainda assim constitui-se de avanço significativo. Cancelar planos sem se cobrar tanto não parece uma visão do inferno, ou descansar num dia de folga parece algo revolucionário.
Com a consistência dos comportamentos e a consciência do que era feito, aos poucos, nosso sistema nervoso central é calibrado com novos padrões para enxergar o mundo e viver a vida, de forma que, ao se deparar com os padrões antigos, depois de serem deixados de lado, a primeira sensação será de estranheza desconfortável, não de familiaridade dolorosa.
No que o processo de cura se torna
Por ser algo que perdurou por tanto tempo, especialmente nos anos formativos, é comum — e até esperado — que os antigos padrões surjam novamente, especialmente diante de momentos de maior tensão ou estresse na vida. No entanto, pelo fato de sabermos quais são os gatilhos que temos, podemos decidir o que fazer, incluindo optar por um caminho diferente.
É comum que nos sintamos mais sensíveis, mas na verdade, só estamos mais conscientes de nossos limites e com menos medo do que podemos encontrar se pararmos para nos dar ouvidos. As nossas necessidades deixam de ser um inconveniente e passam a ser vistas como informações valiosas.
É importante considerarmos que o processo de cura não se trata de uma linha de chegada, e sim de uma escolha que fazemos todos os dias em prol do nosso bem-estar.
Onde não precisamos mais merecer o descanso
Se, ao chegar até aqui no texto, você está passando por uma situação em que se vê no meio do processo de dissociar-se do modo de sobrevivência, esta próxima parte é dedicada ao que precisa ser dito para você, como parte do acolhimento:
Você não é preguiçoso e sua exaustão não é uma falha. O fato de estar com problemas não quer dizer que você esteja agindo errado, quer dizer que a vida está seguindo seu curso.
Se sentir cansado e até mesmo exausto faz parte do processo de entender sua realidade e se dar colo para que consiga entender o que lhe aconteceu e ser responsável por si, mesmo quando ninguém mais foi.