No último texto, foi feita uma analogia didática a partir do que aconteceria se o mundo não tivesse regras, ou seja, limites sociais e legais. Muitas vezes, trazemos grandes reflexões de forma abstrata e complexa, quando a simplicidade pode ser um caminho mais fácil para entender o tema, ainda mais quando o assunto é tão complexo e precisa ser analisado com todo o cuidado e respeito que se exige.
Quando falamos sobre estabelecer limites ou mantê-los, independentemente da idade, da situação ou do contexto, estamos falando de delimitar até onde nós e os outros podemos transitar por entre as relações. Não se trata de rejeição, e sim de ordem. Não é sobre esconder processos, evitar entrar em contato com os outros ou manter relações rasas; é justamente sobre se conhecer ao ponto de saber quais superfícies suportam certos pesos e quais precisam ser tratadas com cuidado.
Um indivíduo que conhece e respeita seus limites é alguém que não aceita menos do que merece, e que sabe que colocar ordem nas relações não é uma afronta contra o Outro, apenas um ato de respeito a todos os envolvidos.
Estabelecer limites não se trata de ser grosseiro ou invasivo; é uma forma clara e não violenta de comunicação, que também representa um filtro extremamente eficiente sobre quem nos respeita e quem se aproveita de nós. A resposta do outro sobre a linha que colocamos nos faz perceber como somos vistos e qual é o lugar que nossa relação com aquela pessoa ocupa para ela. Afinal de contas, se alguém se importa conosco e preza pelo nosso bem-estar, quando verbalizamos um incômodo ou algo que não queremos fazer, essa pessoa há de respeitar e não levar para o pessoal.
Em contrapartida, no momento em que a pessoa se utiliza de subterfúgios e pretextos para menosprezar nossos limites, nossos sentimentos e comportamentos, ela, na verdade, tem essa visão a nosso respeito como um todo.
Existe uma relutância em manifestar os limites, pois manter nossas decisões pode ser assustador e representar, num primeiro momento, uma tomada ativa na iniciativa de ficarmos sozinhos, especialmente se estivermos em relações que nos esvaziam e fazem com que nossos limites pareçam ser temíveis. No entanto, o esvaziamento existencial que tais relações tóxicas nos proporcionam faz com que tenhamos um cansaço mental tão grande que chega ao ponto em que ficarmos propriamente sozinhos parece ser algo muito pior do que realmente é.
É importante mencionar também o fato de que, ao não colocarmos limites às claras nas relações e nos permitirmos ser usados, estamos também contribuindo para este sentimento de vazio existencial, pois abrimos mão de quem somos e isso vem acompanhado de sentimentos como culpa e vergonha, que crescem à medida que não são endereçados e validados.
Estabelecer limites faz parte do processo saudável de desenvolvimento das pessoas como indivíduos plenos e com senso de self formado. Trata-se de um fenômeno que requer prática e flexibilidade mental a ponto de ser analisado de várias maneiras e sempre levado em consideração.
É a partir dos contornos que podemos formar a imagem do desenho, da pintura ou do quadro.