Dentro das fases do desenvolvimento, considerando a sociedade e seus valores atuais, a vida adulta representa o período de tempo mais longo de nossa vida.
Embora a infância, a adolescência e a velhice nos sejam importantes enquanto indivíduos, quase metade de nossa expectativa de vida acontece dentro da fase considerada “adulta”. Dessa forma, é importante que haja reflexões a respeito deste período, com o intuito de melhorar nossa relação com esta fase do desenvolvimento e também fomentar a qualidade de vida e o bem-estar nela.
Considerando este tópico de discussão, creio que seja importante pensar a respeito do quanto nós, enquanto adultos, somos praticamente adestrados a nos voltar somente para nossas responsabilidades em vez da nossa autonomia. Explicando melhor, não faço aqui menção alguma de atenuar ou até mesmo negar a quantidade massiva de responsabilidades e obrigações que esta fase da vida traz consigo. Contas para pagar, restrições de horário, responsabilidades com a família e cumprimento de planos são alguns dos maiores exemplos das obrigações que possuímos.
No entanto, junto com a vida adulta e com tamanha carga de responsabilidade, existe também o contraponto do aumento de autonomia que o sujeito passa a ter em sua vida. Autonomia não para que se aja com libertinagem, inconsequência e hedonismo — até porque, convenhamos, isso também traria sofrimento eventualmente, e aqui promovemos o bem-estar— mas sim a autonomia para que a pessoa aja em sua vida conforme deseja, próxima aos seus valores e tomando decisões que irão reparar os vazios e limitações passadas.
Quando nos tornamos adultos e, principalmente, temos um trabalho salubre que nos permite ter tempo para viver, temos a possibilidade de nos voltar para o passado e para o que nos faltou. O que você gostaria de ter aprendido ou feito quando criança e não lhe foi possível, por falta de algum acesso (tempo, dinheiro, energia, quem te levasse)? Você foi atrás disso, uma vez que é possível se organizar na sua vida adulta para que seja feito?
Vejam bem, isso pode ser desde uma aula de violão até um clube do livro ou até mesmo um esporte como tênis, basquete ou uma dança. Ou, em uma escala menor, pode ser a pessoa ter um hobby como colecionar tampas de garrafa ou ingressos de filmes que ela assistiu no cinema. Cozinhar e trocar receitas, assistir a filmes e a animações e fazer resenhas em um blog, jogar videogame ou RPG, acampar, fotografia, catalogar insetos, jardinagem, viajar, desenhar, pintar, tricotar, fazer trabalho voluntário ou aulas de cerâmica.
Além do que já foi falado em outros textos e reflexões a respeito da importância dos hobbies como forma genuína de nos conectar com quem somos, eles também agem como ferramentas para nos tirar do foco quase absoluto e perpétuo de responsabilidades da vida adulta.
Ter hobbies, como cultivar uma pequena horta ou ir a uma aula de xadrez por semana, não nos impede de trabalhar, passar tempo com os filhos, fazer planos para o fim de semana com cônjuges ou pagar as contas no fim do mês, mas é algo que reforça a importância do tempo para nós mesmos e da nossa conexão conosco. Além disso, ajuda a diluir a ideia de que a vida adulta é cinza, sem nenhuma diversão ou descanso e deve ser voltada apenas para ganhar dinheiro e cuidar das necessidades dos outros.
Se a fase adulta é aquela pela qual passamos dos nossos 20 aos 60 anos, ou seja, 40 anos da nossa vida, não seria prioridade fazer com que ela seja a melhor possível? A ponto de vivermos de maneira plena e conciliando nossas responsabilidades e obrigações com nosso lazer e desenvolvimento individual?