TCC

Modo de sobrevivência, seus danos e o que sair desse estado representa

Passando pelo luto, pela exaustão e pelo quanto é exigido do indivíduo neste processo.

Clara Ferreira Pio

Clara Ferreira Pio

Psicóloga

É importante que, diante dos nossos problemas e traumas, termos a capacidade de nomear exatamente quais são as questões que ressoam conosco. Por mais que sejam assuntos sensíveis, o ato de entender momentos espinhosos da nossa história, faz parte do processo de cura.

Modo de sobrevivência, seus danos e o que  sair desse estado representa

O que é o modo de sobrevivência?


O “modo de sobrevivência” é um termo usado para resumir comportamentos, pensamentos e sentimentos dos indivíduos que passam por situações extremas de estresse frequente e constante. É um mecanismo de defesa que o nosso cérebro adquire para que possamos nos defender de ameaças — reais ou imaginárias — e que visa uma resolução eficiente e rápida dos fatores ansiogênicos.


Porém, não se trata da simples e convencional solução de problemas, pois este último conceito envolve elementos como pedir ajuda, parar para pensar sobre as consequências, considerar e respeitar os próprios limites e até ter tempo para descanso.


No que diz respeito ao modo de sobrevivência, é como se usássemos um “óculos” que afeta nossa visão a ponto de não enxergarmos nada além do problema e da primeira solução que podemos pensar para resolvê-lo. Nossa atenção fica reduzida, ficamos mais irritados, sem dormir direito e com alterações no apetite. Nossas forças — físicas e mentais — estão todas voltadas para o que nos deixa mal, a origem do trauma, e isso gera sentimentos de medo, ansiedade, preocupação e raiva de forma prejudicial.


Podemos entrar no modo de sobrevivência diante de situações de abusos verbais e físicos, desastres naturais, questões financeiras (insegurança alimentar) ou problemas de saúde — doenças que ameaçam a vida, por exemplo, o câncer. Todas essas situações são extremamente sérias e demandam tempo e muitas etapas para serem resolvidas.


Um exemplo do que pode ser estar no modo de sobrevivência


Pessoas que passaram boa parte de suas vidas dentro do modo de sobrevivência podem descrever este fenômeno, surpreendentemente, como algo que lhes parece normal e familiar, justamente por perderem outros referenciais ao longo do tempo.


Para elas, pode ser normal que um pai ou uma mãe fale com elas gritando e depois lhes dê o tratamento de silêncio por uma semana, ou que eles tenham que dizer “sim” ao que lhes é pedido ou imposto sem questionar.


Pode ser que existam momentos de lucidez aparente, onde a mente dessas pessoas questione o peso de tais ações, a ponto da pessoa pensar que está traindo a si mesma, mas o peso de que o indivíduo não tem uma escolha é grande demais para ser ignorado. Dessa forma, como alternativa, a pessoa aprende a se mover quieta e rapidamente, não exigir nada e ficar fora da vista dos outros. Os sujeitos no modo de sobrevivência aprendem a ignorar suas fomes — sejam elas literais ou figuradas — em favor de manter a paz.


Um fato importante é que o termo “modo de sobrevivência” é novo e que, mesmo que esteja se popularizando, muitas pessoas demoram a reconhecê-lo e adotá-lo para nomear momentos-chave de suas vidas. Como parte das defesas de suas próprias mentes, elas aprendem a negar e a atribuir outras nomenclaturas — hiperprodutividade é uma virtude, não um problema; não sentir suas emoções é uma força, pois dá menos trabalho; a tensão constante que o corpo sente é, na verdade, ser responsável com seus compromissos. Em virtude disso, esses indivíduos sempre estão disponíveis aos outros, de uma forma que performe disposição e proatividade, por não saberem outra forma de existir.


Nessa espiral cognitiva e comportamental, qualquer forma de descanso ou de contemplação genuína vai soar como perigo absoluto, sem mencionar que as próprias necessidades do indivíduo parecem como um inconveniente que ele não pode se dar ao luxo de ter.


O que acontece quando saímos do modo de sobrevivência?


O processo de cura pode ser comparado à sensação que temos quando chegamos em casa depois de um longo dia de trabalho, nos sentamos a uma poltrona ou cadeira e percebemos que não conseguimos nos levantar por um tempo — pois o nível de exaustão é tamanho que só nos demos conta quando paramos para sentir nosso corpo.


Quando passamos anos no modo de sobrevivência, o corpo abre uma comanda e, no momento em que se sente seguro o suficiente, ele nos entrega a conta. Podemos perceber que ficamos doentes com mais frequência, dormimos por mais tempo e continuamos nos sentindo cansados, choramos por coisas que nunca nos tocaram antes. Situações e memórias que achamos que estavam enterradas emergem à superfície, no meio dos momentos comuns do dia a dia.


É muito comum que haja o equívoco de achar que sair do modo de sobrevivência seja apenas sobre se libertar e sentir que um peso do tamanho de um elefante foi retirado das costas. Ao invés disso, sair do modo onde tudo é uma emergência e precisa ser resolvido de uma forma ou de outra pode parecer uma mistura de desorientação, desmoronamento e até mesmo perda do contato com nossa versão  que nos é familiar.


Nesse momento, o mais importante é ter paciência consigo mesmo e entender que o que iremos sentir virá com todo o atraso de anos ou até de décadas, decorrente do que aconteceu. E a sensação é o entendimento de que não estamos bem e que não devemos mesmo estar, mas estamos preparados para começar a nos entender e fazer algo a respeito.

Clara Ferreira Pio

Sobre a autora

Clara Ferreira Pio Sou Clara Ferreira Pio, psicóloga e neuropsicóloga, dedicada a ajudar pessoas a se tornarem protagonistas de suas próprias vidas.

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