Na época em que trabalhei na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), tive uma colega de profissão com quem trocava ideias sobre atendidos, nossa atuação enquanto profissionais e nosso olhar para o público, de forma geral. Me recordo de um relato que ela trouxe como uma forma de manejo para explicar aos atendidos a importância de regras, limites e normas que precisávamos seguir, fosse na escola, na família ou até mesmo na sociedade.
Por questões narrativas e para esclarecer o relato, farei a simulação de um diálogo:
Paciente: Eu não gosto de regras; eu não quero normas. Eu queria poder fazer o que eu quiser quando eu quiser e do jeito que eu quiser.
Psicóloga: Tá bom, então. Você quer poder fazer o que quiser? A hora que quiser, do jeito que quiser, sem ninguém te aporrinhando ou te enchendo a paciência? Ok, vamos imaginar isso então?
Paciente: Vamos!
Psicóloga: Imagine, então, que não tem regras. Você pode acordar a hora que quiser, comer só sorvete no café da manhã, não precisa nem vir pra escola. Afinal de contas, não existem regras, então, pra quê fazer o que a gente não gosta? Eu não gosto de estudar, então eu não viria trabalhar e nem prepararia os materiais para os atendimentos com vocês. E você não precisa fazer tarefa de casa, estudar, fazer provas e nem trazer material. Aliás, nem precisa vir para a escola. Não existem regras; você pode fazer o que quiser.
Paciente: Nossa, sim! É exatamente isso o que eu quero! Vamos fazer isso, sim!
Psicóloga: Então vamos imaginar que, depois de um tempo com isso de não ter regras, ninguém indo trabalhar ou estudar, a gente começa a ver as ruas e a cidade um pouco diferentes. Os coletores de lixo certamente não vão trabalhar porque, convenhamos, quem quer ir atrás de pegar lixo dos outros como trabalho todo dia, não é?
Paciente: Pois é. Acho que as ruas vão ficar sujas, então.
Psicóloga: Sim, bem sujas e fedidas. E você sabe o que acontece se o lixo começa a acumular demais, ainda mais com restos de comida? E ainda tem um detalhe: quem garante que vai ter comida pra todo mundo? Como é um mundo sem regras, o pessoal que planta e colhe os alimentos leva a comida para o mercado e para os restaurantes para que a gente possa comprar; certamente não vai trabalhar. Eles devem ficar com a comida pra eles.
Paciente: Mas aí é errado! Todo mundo tem que comer!
Psicóloga: Claro que não é errado, não tem regras pra dizer o que é certo e errado, lembra? São as regras que fazem isso e, agora, não tem mais esse negócio de regras. Mas, com ou sem regras, o lixo da comida que ficou na rua, cheirando mal e acumulando porque os coletores de lixo pararam de trabalhar, começa a atrair baratas, moscas e até ratos. Sem contar que esse lixo também entope as bocas de lobo, então quando chove, certeza que todo mundo vai ficar andando com água cheia de xixi e cocô de rato pelas canelas.
Paciente: Mas isso deve fazer mal pra saúde!
Psicóloga: E faz mesmo! Deixa a gente passando mal, doente, pode até morrer, sabia?
Paciente: Então eu vou pro hospital. Lá tem remédio, lá tem médico pra ajudar.
Psicóloga: Será mesmo? Se eu fosse médica, eu não sei se eu ia querer trabalhar quando todo mundo não precisa e quando não tem regras. Eu acho que o hospital está vazio, sem ninguém.
Paciente: Então o que eu faço?!
Psicóloga: O que você acha que dá pra fazer?
Paciente: Eu morro! Sem ajuda, sem comida, com lixo e cocô de rato, sem médico e sem remédio, eu morro!
Psicóloga: Exatamente. Regras existem para nos manter vivos, para cuidar da gente, como sociedade, e para garantir que, quando precisarmos de algo, elas estarão lá para nos proteger.