Estudadas há mais de um século, mesmo antes de receberem o nome que têm hoje, as funções executivas são um conjunto de processos e fenômenos cognitivos que ajudam os indivíduos a se regular, planejar, priorizar e sustentar nossos esforços em direção a objetivos, especialmente metas a longo prazo.
É através das funções executivas que é possível atingir um propósito pré-determinado: tirar uma nota alta, conseguir uma promoção no trabalho, se mudar de casa, comprar um carro, escolher onde levar a namorada para jantar e como pedi-la em casamento, etc.
As Funções Executivas se fundamentam em processos básicos, como:
- Controle inibitório;
- Memória de trabalho;
- Set shifting;
- Tolerância ao desconforto;
- Manejo de tempo;
- Flexibilidade mental;
- Ligação do passado com o presente; e
- Abstração de etapas.
É importante mencionar que muitos, senão todos, processos listados se relacionam e necessitam de um ou mais outros para funcionar plenamente, porém serão explicados de maneira isolada para fins didáticos.
Tais processos são fundamentais para tomadas de decisões vistas como “responsáveis” e “adultas”. Inclusive, dado o fato do processo de neurodesenvolvimento humano, as funções executivas ficam localizadas no córtex pré-frontal, parte do cérebro que amadurece mais lentamente, sendo a última a atingir seu desenvolvimento completo. Esta etapa final de aperfeiçoamento do sistema nervoso humano se estende até os 25 anos.
Usando uma analogia – é como se o sistema nervoso central fosse uma grande nave espacial. O córtex pré-frontal representa a “sala de comando” da estrutura, com sistemas de navegação, painel de controle e monitoramento para todo o restante da nave. Enquanto isso, as demais áreas se reúnem para debater o que deve ser feito. Porém, só se instalam os painéis e os meios de comunicação para as outras regiões da nave quando estes estão construídos. A estrutura existe, mas a instalação da “parte elétrica” é a última etapa antes da finalização do projeto.
- Analisando os processos das F.E.
Controle inibitório: consiste na capacidade do sujeito de inibir ou controlar respostas impulsivas (ou automáticas) e criar réplicas usando a atenção e o raciocínio. É através do controle inibitório que o indivíduo coloca em prática outros aspectos das F.E., como a flexibilidade mental, a tolerância ao desconforto e abstração de etapas e se mantém no caminho para executar sua decisão pré-estabelecida ou solucionar um problema que aparece.
É comum que indivíduos de forma geral possuam controle inibitório apropriado para a grande maioria das situações que enfrentam ao longo do dia. Essa administração ocorre em prol de variáveis que são respeitadas, desde as mais simples como sono e fome, até as mais elaboradas como qualidade do relacionamento, andamento de planos, motivação para realizar uma tarefa e índices de sociabilização. À medida que uma ou mais destas variáveis são burladas, o funcionamento como um todo do cérebro é afetado, começando pelas funções executivas, as quais são a parte mais elaborada.
Memória de trabalho: também conhecida como memória de curto prazo ou memória operacional. Trata-se de um segmento da Memória responsável por armazenar informações corriqueiras as quais o sujeito sabe que precisará acessar quase imediatamente depois de elas terem sido guardadas.
Ela irá se relacionar com outros fenômenos como o set shifting, controle inibitório e ligação do passado com o presente, pois a informação que é guardada precisa ter uma função para se direcionar, caso contrário, ela se perde.
Set shifting: trata-se da habilidade de alternar a sua atenção e demais funções cognitivas entre mais de um estímulo de forma alternada. Quando se fala em “estímulos”, podem ser tanto processos internos (pensamentos, emoções, linhas de raciocínio e afins) quanto processos externos (pessoas falando com você, trânsito, fenômenos meteorológicos, coceira atrás da orelha, dentre outros).
Tolerância ao desconforto: como o próprio nome sugere, consiste na habilidade do indivíduo de passar por situações incômodas e perturbadoras sem se sentir sobrecarregado ou ter rompantes - emocionais ou sensoriais.
Manejo de tempo: organização e planejamento da divisão do tempo entre diferentes atividades. Na prática, consiste em antecipar e prever quanto tempo demandará cada atividade, deslocamento, interação e compromisso.
Pensando em atividades que geram desconforto, medo e raiva, ter noções de tempo estabelecidas é importante para organização de logística e também para preparo de tolerância ao desconforto. Se uma pessoa, por exemplo, se sente incomodada em espaços fechados, porém precisa fazer uma Ressonância Magnética, ela pode se preparar antecipadamente e recolher informações sobre o exame, o tempo de duração e fazer exercícios de respiração para minimizar o incômodo durante o tempo que ela ficará na máquina.
Flexibilidade mental: habilidade de encarar um problema ou uma situação de diferentes perspectivas.
Ligação do passado com o presente: compreende-se como a forma de ligar experiências passadas já adquiridas com aquilo que a situação atual exige. Podem ser uma habilidade ou informação absorvidas anteriormente, ou mesmo referências de contextos similares que sirvam de base diante do que estiver sendo apresentado.
A importância de conhecer e assimilar estes conceitos se torna nítida quando os pacientes precisam entender não apenas a sua responsabilidade dentro do processo terapêutico e de suas vidas, mas também o que há por trás da sua força de vontade, de seu desejo de mudança e da sua necessidade de sair da configuração que ocupa. Ainda que não dependa apenas do paciente, muito disso está em seu radar.