Embora não seja tão difundido, janeiro é considerado o mês da visibilidade trans no Brasil. Trata-se de um período em que campanhas são organizadas, profissionais qualificados falam sobre a pauta e, em rodas de conversa ou palestras , levantam-se questões sobre políticas públicas, saúde e até mesmo a história da transgeneridade no Brasil.
No entanto, não existem pessoas trans apenas em janeiro. Da mesma forma que não existem pessoas com deficiência apenas em setembro ou consciência negra apenas em novembro.
Quando observados através do filtro teórico da Terapia Cognitivo-Comportamental, somos considerados seres biopsicossociais, existindo dentro de uma sociedade dinâmica e com conteúdos específicos, que irão se relacionar com os outros, com os lugares e que, por sua vez, irão repercutir em outras variáveis, alimentando um ciclo de interações e construções de seres e de sociedade.
Porém, diante deste panorama, o que aconteceria se os mecanismos desta mesma sociedade que deveria abraçar, acolher e enriquecer as vivências de seus indivíduos agissem podando, castrando e até mesmo assassinando pessoas por serem quem são?
Tais mecanismos podem ser explícitos e violentamente cortantes, como legislações que atribuem pena de morte para pessoas LGBTQIAP+, famílias que expulsam seus membros de casa sem nenhuma estrutura ou amparo ou estupros corretivos. Mas também podem ser implícitos, ocultos e quase imperceptíveis. Nesta segunda fórmula, por menor que seja, existe um dano colateral que adoece a psique do sujeito, pois, como é feito por debaixo dos panos, não há confirmação de que aquilo realmente aconteceu. Neste segundo contexto, encontram-se as “microviolências”.
E são nesses pequenos mecanismos, ocultos e, ainda assim, adoecedores, que o Cistema ganha força. O mesmo Cistema que dificulta, em todas as etapas do caminho, que pessoas trans terminem os estudos; ou sejam contratadas em processos seletivos a ponto de precisarem recorrer à informalidade e ao trabalho explorado; ou que as exilam do acesso à saúde e de qualquer outro espaço onde sintam que não têm o direito de existir.
O Cistema existe e prejudica não apenas as pessoas trans, mas é inegável que os danos causados a essa parcela da população ocorram de forma extremamente mais evidente quando comparada às pessoas cis, que só têm a perder quando não se deparam com o que podem ganhar quando se veem diante das diferenças.
O Cistema está em qualquer instituição que não inclua ou represente pessoas trans, como também nas que impedem que essas pessoas se sintam bem recebidas e minimamente respeitadas nesses espaços. Ele existe para garantir que pessoas trans (e outras minorias, dependendo das intersecções pessoais de cada um) se mantenham permanentemente à margem da sociedade, focadas demais em sobreviver a ponto disso retirar tanto de suas energias, seu tempo e seu dinheiro que não lhes sobra nenhuma para lutar por um lugar no centro.
Cabe a quem é cis e quem está no centro facilitar o acesso. Pontes se constroem de dois lados, para fomentar a troca e estabelecer parâmetros que, aos poucos, quebrarão esse Cistema.
Uma forma de se questionar como nós, pessoas cis, lutamos contra esse Cistema é responder de forma honesta às seguintes perguntas:
- Quantas pessoas trans você conhece e convive? Você permite que a sua companhia seja um espaço seguro para elas, a ponto delas falarem da experiência delas em serem trans, mas também para que existam além disso, falando de suas ambições, seus hobbies, medos e suas frustrações?
- Das pessoas trans que já passaram por suas vidas, quantas delas estavam em uma posição minimamente confortável, com comida, moradia, acesso a trabalho e dinheiro? O que você fez para garantir que elas tivessem um pouco mais de conforto ou amparo?
- Nos espaços em que você frequenta (escola, faculdade, trabalho, restaurantes, parques, banco, supermercado, vizinhança), em quais deles você encontra pessoas trans? E elas estão na posição de serviço ou estão usufruindo do espaço da mesma forma que você?